De novo
15/04/2007
06/09/06 12:20:58 Status: Publicado
Queridos amigos,

Decidi encerrar este blog. Muito obrigada pelo apoio, pelo carinho.
Foi um privilégio ter conhecido pessoas que procuram pensar com honestidade e lutam, incansavelmente, por suas idéias e convicções.
Agradeço, especialmente, os que me honraram com o link em seus blogs.
Abraço cada um com muito carinho.
Voltarei assim que puder dedicar um tempo diário à “rede”.
Escrito por MARILIA em 15/04/2007
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30/03/2006
"OPÇÃO PELA SOCIEDADE
No dia 18 de agosto de 1994, pressionado para que se posicionasse por um dos candidatos à Presidência da República nas eleições de outubro daquele ano - Fernando Henrique ou Lula, Betinho (Herbert de Souza) publicou no jornal O Globo o artigo abaixo.

"... Quero vir a público expressar algumas reflexões que faço sobre esta eleição . Começo por dizer que não creio que o governo seja o fundamental em nenhuma sociedade, muito menos numa como a nossa. O poder do governo é sempre o poder dominante de uma sociedade. Sem mudar a sociedade, não adianta mudar o governo. A mudança é aparente, é uma armadilha, é uma mentira.
Por isso, meu olhar e minha atenção estão concentrados sobre a sociedade. Por isso, para mim, mais importante que o Estado é a sociedade, mais importante que qualquer governo é a Ação da Cidadania. Esse hoje é o meu credo. Entre o presidente e o cidadão, fico com o cidadão.
Meu anti-estatismo não tem a mesma origem do pensamento neoliberal. Sou crítico do Estado porque quero democratizá-lo radicalmente, submetê-lo radicalmente ao controle da sociedade, da cidadania. Não quero o Estado no planalto, mas na planície. Não quero o presidente, mas o cidadão. Não quero o salvador, mas o funcionário público eleito para gerenciar o bem comum.
Para mim, as eleições de outubro não têm o caráter de definir nosso futuro. Quem decide o nosso futuro somos nós a cada dia, hora, minuto de uma ação política contínua, que não se esgota em outubro ou novembro.
Faço críticas tanto ao Fernando Henrique quanto ao Lula. Tenho e sempre fiz críticas abertas ao Fernando Henrique como Ministro da Fazenda. É óbvio que lamento profundamente suas alianças com o que existe de passado conservador e reacionário de nossa política. Mas tenho também críticas ao PT e ao Lula.
O PT ainda se crê um partido único, aquele que detém a verdade, o caminho e a luz, a coerência, a ética. Essa visão que tem de si mesmo me assusta.
Apesar de não acreditar que eu vá viver muito, o fato é que atuo como se a vida não terminasse nessa eleição. Para mim, a eleição é importante, mas a história não estará sendo construída pelo Estado, seja com Fernando Henrique, seja com Lula. Não creio mais em salvadores. Creio em cidadania e por isso minha noção de tempo é diferente. Se Fernando Henrique for eleito, me terá fazendo cobranças nas horas seguintes a sua posse. Se Lula for
eleito, também vai me encontrar com a mesma atitude. Não serei governo de nenhum deles. Sei que eles são diferentes, mas essa é a minha opção.
Herbert de Souza - Betinho"
O Globo - 18/08/1994



PS:Seria bom organizar passeatas nas capitais do país, e uma grande manifestação na frente do Planalto, com um objetivo bastante modesto: EXIGIR a quebra de sigilo bancário do empresário Okamotto. Nada mais justo depois do que ocorreu com Francenildo.
Onde existem lideranças, oposição, povo, associações de bairro, onde existe sociedade organizada para fazermos ao menos isso?
Se não há, qual a surpresa de estarmos nessa situação?
Escrito por MARILIA em 30/03/2006
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25/03/2006
Bonnie & Clyde

Os bancos não informam o quanto descontaram de Imposto de Renda nas aplicações financeiras. Não consta do extrato. Devia constar!

O extrato de rendimentos para Declaração do IR deveria trazer qual foi a tributação tungada na fonte – a tal tributação exclusiva.
Isso e o total do CPMF que nos descontam o ano inteiro.

As notas de compras também deviam discriminar as parcelas de impostos que compõem o preço do produto.

Temos o direito de saber o quanto, de fato, pagamos para essa gente se divertir tanto.

Deve haver um jeito de requerer isso através do Ministério Público. Alguém sabe dizer?

Bancos e Governo, uma dupla afinadinha!

Escrito por MARILIA em 25/03/2006
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21/03/2006
As sociedades são o que são as famílias.
Aristóteles



Aqui, em Washington, DC, a escola pública é de má qualidade, quase sem exceções. Muitas famílias decidem onde morar tendo em vista apenas a qualidade do ensino que a cidade oferece porque a criança só pode freqüentar escola no lugar onde reside. Então as alternativas são: a) estudar em escola da qual se sai praticamente iletrado; b) mudar-se para uma cidade que tenha boa escola, mesmo que fique distante do trabalho e das atividades de outros membros da família; c) pagar escola privada que é caríssima.

Por algum tempo, os responsáveis pelas escolas públicas alegaram que o problema da má qualidade do ensino era falta de dinheiro. Pois aumentaram as dotações – cada criança custa uma fortuna por ano. Os resultados continuaram péssimos.

Outro dia assisti a um documentário sobre a escola pública em um país do norte da Europa. Lá a verba destinada ao ensino é vinculada à criança, não à escola ou à Prefeitura. Assim os pais da criança podem matricular o filho onde lhes aprouver. E as escolas tratam de se aprimorar para oferecer o melhor ensino, já que disputam os alunos - a verba acoplada a eles. As crianças têm professores bem preparados e dedicados, e têm que apresentar resultados, como na vida real. Elas não se formam apenas por comparecer à escola.
Testes aplicados lá e aqui revelaram assustadora desvantagem, em todas as áreas, para os estudantes daqui.
Enquanto os burocratas discutem o que fazer, os pais responsabilizam as escolas pelo despreparo dos jovens, sua inadequação e a busca do caminho das gangues e das drogas.

Coisas pequenas como uma visão administrativa equivocada, uma visão paternalista, e o prejuízo é imenso. A médio prazo, incalculável.

No nosso caso, aos poucos, vamos tratando de copiar os modelos comprovadamente fracassados.

Mas, olhando para o futuro: todos concordamos que investir em educação é urgente e essencial.
A questão é: como seria essa escola básica? Predião bonito? Computador? Português, matemática, geografia, história, ciências, desenho - o de sempre? Como seria um programa básico ideal?
Escrito por MARILIA em 21/03/2006
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16/03/2006
Ainda sobre nossos fantasmas.

Quando a neta de Verinha nasceu, há seis anos, ela, que tem múltiplos talentos, escreveu uma comovida história-de-fadas para dar de presente à menina. Antes de ilustrar, de por em forma de livro, ela pediu minha opinião.

Basicamente a história dizia que numa bela manhã de junho, nasceu num castelo mágico, uma linda princesinha. Ela cresceu feliz, encantando a todos com sua formosura. E todos, realmente, gostavam muito da formosura da menina.

Peraí, formosura é tudo o que ela tem? E encantar os outros é tudo o que ela faz? Não dava para ela gostar de viver, brincar, aprender, vencer obstáculos, e se tornar uma princesa de verdade, ao menos pra si mesma?

Verinha começou a morder a bochecha pelo lado de dentro. Tentei de outro jeito: se fosse menino, você ia resumir os predicados dele à formosura que encanta os outros? Não. O príncipe teria vida própria. Se os outros se encantassem com ele, tudo bem. Mas esse não seria o eixo de sua vida, sua única função. Seria só uma circunstância favorável.
Eu devia deixar para lá e dizer: Nossa, está lindo, tão meigo, como você escreve bem, olha essas rimas, isso é pura poesia. Mas não consigo.

E se a menina não for linda encantadora? Você cria uma ansiedade, uma frustração, quase uma culpa gratuita. E, se for, ela vai supervalorizar essa qualidade em detrimento das outras, que realmente fariam diferença. De qualquer lado que se olhe, isso é negativo. Paralisa, imbeciliza.

Dava pra ver que ela tinha trabalhado muito naquele conto-e-fadas, e estava magoada. Eu disse que a crítica não era pessoal, não era sobre ela, mas sobre o texto, a história que a neta iria guardar como relíquia, e reler centenas de vezes ao longo da vida. E palavra de vó tem peso.
Ela me disse para terminar de ler antes de julgar. Continuei.

A menina viajava, passeava, conhecia o mundo mas vivia sem rumo, melancólica porque não encontrava alguém que a compreendesse, que gostasse dela. E ficou nessa tristeza até que finalmente apareceu o príncipe encantado e tudo reverdeceu, floriu, primaverou, ela parou de viajar, a tristeza acabou, e pronto. Imobilizada para sempre no beijo enamorado. Fim! Caput.
Aquilo não parecia presente de avó mas de alguma bruxa cheia de preconceito, que quisesse oprimir a menina, e fazer dela mais uma mulher carente, infeliz, com menos de meio neurônio de inteligência emocional.

Se ela fosse um menino, a história dele se resumiria a isso? Tentei ainda.
- Por que deveria? Ela me respondeu, encerrando a conversa.
Não voltamos mais ao assunto.
Outro dia, por acaso, vi o livro pronto. Uma obra de arte, todo feito a mão. Com o texto original.

*****


Coluna de Ancelmo Gois de hoje

"Direita, volver

Do historiador José Murillo de Carvalho:

— Em matéria de política econômica, Serra seria uma opção à esquerda de Lula. Agora, não há opção."

Será que alguém ignorava isso?


Escrito por MARILIA em 16/03/2006
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12/03/2006
Dois Pontos.

1. Em 1868, metade dos negros americanos obteve o direito de votar.

A outra metade teve que esperar mais 52 anos.

Em 1920 as mulheres conquistaram essa condição de cidadania.

Foram 72 anos de luta desde a Primeira Convenção dos Direitos da Mulher realizado em 1848.

No Brasil, a vitória veio em 1934, com Getúlio. Pensando bem, votamos pouquíssimas vezes para Presidente da República. GV, JK,JQ de triste memória, FCM, FHC, LILS. Só?! Ainda é tempo de aprender.


2. Estou voluntariando na Biblioteca do Congresso. Eles têm mais de 4 mil funcionários e ainda precisam de voluntários. Acho bom, quero aprender sobre tudo o que aquela maravilha oferece.
Mas o ponto não é esse. O que achei interessante são os chamados tours dos senadores. É o seguinte: você mora em uma cidadezinha no Arizona, em Michigan, onde for, e vai a Washington. V. liga para o seu deputado/senador e pede para ele agendar o que houver de interessante na capital pra você.
Na segunda-feira (dia em que trabalho) foram 82 pessoas encaminhadas por congressistas.
Achei interessante esse contato pessoal, essa atitude de considerar o representante deles no Congresso como alguém que está a serviço deles.
Eles não têm essa alma de vassalos que temos. E seu sistema eleitoral ajuda.
O nosso reforça o distanciamento, mantém as “incelenças” inatingíveis, reforça o apartheid.


Escrito por MARILIA em 12/03/2006
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09/03/2006
Minha amiga Cleo me disse:
- Sabe a Mercedes? Ela é super sua fã. Te acha o máximo!
- A diretora do..?
– Essa mesmo.
- Deve ser outra Marília. Ela mal me conhece.
- Não. É você. Você não almoçou no Fiorentina no domingo?
- Ela ficou minha fã por que me viu no restaurante?
- Ela disse que você estava sozinha. Que você almoçou na maior tranqüilidade, e ainda tomou um cálice de vinho.

O papo estava meio surreal para mim. Mas era só o começo.

Mercedes, fera em finanças, relações internacionais, profissional respeitada numa área difícil, onde é raríssimo ver mulher, ainda mais num cargo executivo alto, queria que saíssemos juntas pra comer uma pizza. Queria conversar.
Fomos, depois de um show com o guitarrista Stanley Jordan, a uma pizzaria pequena como um bistrô francês. Só umas quatro mesas, ainda bem.
Ela queria saber como era isso de comer sozinha, ainda mais num restaurante badalado.

– Não pensei nisso, disse. - Eu estava com fome, já eram 4 horas, os restaurantes de comida a quilo da quadra já estavam fechados. Entrei no primeiro que encontrei funcionando, e curti bem o momento, já que coincidiu do lugar ser bom.

- Simples assim? Ela gritou. - Você quer me convencer de que isso é verdade?

Pulei na cadeira com o susto. Olhei para Cloé, que a conhece há muitos anos. Ela tamborilava na mesa, de leve, e tinha um sorriso cansado, aborrecido.
De cara, a mulher me chamava de mentirosa aos gritos.
Não vou reproduzir a conversa toda para não ficar longo. Vou resumir.
O ponto crucial é que Mercedes não aceitava a idéia de que mulher se sentisse bem, estando sozinha.
Cloé – que nunca se casou, nem teve filhos porque escolheu assim – garantia que sim. Mercedes disse que preferia morrer de fome a sair desacompanhada para comer.
– Por que? Perguntei, incapaz de ver o problema.
–O que você acha que as pessoas pensam, vendo uma mulher sozinha?
– Nada, provavelmente, nem reparam. A não ser que V. seja alguém muuuito famoso.
– Mas vocês, ela esganiçava a voz três escalas acima de um dó médio, - vão querer me convencer que uma mulher pode ficar bem, ficar feliz sozinha?
– Claro! Disse Cloé, prontamente. Fiz uma rápida viagem ao passado e me lembrei dos primeiros anos fora de casa, quando estava sozinha, trabalhando e estudando muito, comendo de bandejão, lendo como doida, e fazendo passeata, vivendo com o mínimo absoluto, e em plena glória.
– Sem dúvida, eu disse. Pode-se ser mto feliz sozinha.

Mercedes muito chique, muito delicada em cima dos saltos fininhos, berrava como um sargentão. A única mesa ocupada, na pizaria, além da nossa, pediu a conta.

– Você já pensou em fazer terapia? perguntei, quando ela deu folga.

– Não é o caso, ela garantiu. Faço psicanálise há doze anos, e adoro o Marco Aurélio, mas isso não tem nada a ver.

- Hmm... Tratei de distender braços e pernas, relaxar bem pq diante de maluco, há que manter a calma; e sair fora na primeira chance. Foi o que fiz.
Agora, vá entender! E ela não é exceção. Tenho outras amigas que sofrem dessa disparidade aguda entre a capacidade intelectual e emocional. Felizmente nenhuma delas se exalta como Mercedes.
Por isso falei, na postagem anterior, em aberração emocional - essa falta de auto-estima é tão enraizada que mulheres que venceram em tudo, muitas vezes caem nesta armadilha.

Escrito por MARILIA em 09/03/2006
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07/03/2006
Meiguinhas

Assim que completei 18 anos, contrariei o destino e a família, indo para a capital, sozinha, para fazer faculdade. Mamãe não se conformava: “uma filha só sai de casa pelos braços do marido”. A idéia me dava calafrios.
Se ela pudesse escolher, as filhas seriam professoras, nunca se interessariam por homens, não se casariam, e jamais sairiam da casa dos pais. Ser freira também seria uma opção. Sair para viver sozinha na cidade grande, isso nunca!

Não era só mamãe, no interior de Minas. O pai da colega que me hospedou nos primeiros dias, advogado bem sucedido, nos seus quarenta anos, não se conformava: “não sei para que vocês estudam. Mulher inteligente não casa!”
O Festival de Woodstock assustava o mundo, o homem passeava no espaço; no Brasil, a ditadura metia o pé em qualquer resto de ilusão.
Tudo bem, desde que a mulher se mantivesse atada aos trilhos: o casamento era sua única saída, sua obrigação, seu fim.

Essas cargas culturais estão no inconsciente coletivo e demoram a mudar.
Talvez isso explique por que a maioria de nós, mesmo protestando, ainda se veja como objeto; ainda não se respeite. E que, mesmo mulheres brilhantes profissionalmente, se transformem em aberração emocional quando o assunto é relacionamento com homens.

Escrito por MARILIA em 07/03/2006
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*******
E-mail que recebi de minha amiga Rose:
"Cenário : Sambódromo, na última quarta-feira de cinzas. Torcidas de todas as escolas acompanham a apuração,ao vivo, até que a Vila Isabel, no último quesito, é sagrada campeã. Delírio.A repórter se aproxima com dificuldade do mestre da bateria campeã , um negão engasgado pela emoção, e estica o microfone.Tudo que ele conseguiu articular foi um grito rouco : " A gente ganhamos!!!!!!!!!!!"
Pensei com meus botões: " A gente se fudemos, mestre", isso sim..."

Escrito por MARILIA em 07/03/2006
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01/03/2006
Crime, Congresso e o Zé-Ninguém

Outro dia li no Washington Post* um longo artigo que me chamou a atenção. Resumindo:

Há algum tempo, o crime nas grandes cidades americanas estava fora de controle. Tentar recuperar áreas tomadas pelos criminosos era como tentar salvar uma cadeira no deck do Titanic. As cidades americanas tinham ido pro inferno e não sabiam o caminho de volta.
No entanto, hoje se sabe que havia saída, sim. O homicídio em Nova Iorque, o exemplo mais notório, caiu 75%. Lugares antes considerados zonas de guerra, hoje abrigam cafés elegantes e prédios de apartamento luxuosos.

No entanto, Há ainda um lugar em que vem ocorrendo uma onda de crimes sem paralelo na história recente. Fica em Washington, DC. No Congresso Nacional. Embora seus líderes garantam que estão fazendo a limpeza, muitos especialistas se mantêm céticos. Os escândalos são tantos que têm reforçado a tese de Mark Twain de que Os Estados Unidos não têm uma categoria criminosa nacional, a não ser o Congresso.

Reduzir crimes no Congresso não é apenas um fim em si mas algo essencial para se conseguir um governo melhor. Porque membros do Congresso, seus assistentes e lobistas podem fazer os que pagam impostos de vítimas, sem violar as leis. Nesse caso cabe perguntar se a estratégia usada para limpar as ruas de NY não poderia limpar o Congresso.

Sim, por que não? Diz Jack Levin, criminologista da Northeastern University. “Você tem que mudar a cultura. E nós temos aprendido muito como fazer isso”.
E o artigo segue comentando as medidas bem sucedidas contra o crime e como elas se aplicariam ao Congresso.

Duas coisas me chamaram a atenção no artigo. Uma: eles terem conseguido controlar o crime, mesmo em uma cidade grande como Nova Iorque.
Duas: a objetividade, o bom senso com que eles abordam os problemas.

Não ficam reclamando nem jogando a culpa em outro. Não vi ninguém dizer, diante da corrupção de membros do partido republicano: - Ah, mas isso sempre foi assim. Os democratas, você acha que são santos?
Não. Eles querem resolver o problema. Eles querem, não apenas punir os criminosos do momento, mas mudar a cultura, criar normas e formas que impeçam o crime. Isso parece óbvio, a única atitude minimamente inteligente. Mas não para nós.

Nosso Congresso, Judiciário, Executivo abrigam bandidos e incompetentes!
Mas isso sempre foi assim! Responde o zé-ninguém, como se recebesse uma injúria pessoal, e tivesse que se defender, defender o patrão, o coroné, o sinhozinho – quando deveria se sentir como a vítima que é.
Não conseguimos sair desse círculo maluco, e pensar objetivamente. Ou não queremos pensar porque dá canseira.
E assim, o crime se enraíza nos morros e planaltos. Assim será, cada vez mais, pelos séculos dos séculos, não importa que partido vença. É para onde nossa cultura nos leva.


*www.washingtonpost.com “Bad Neighborhood”, Caderno Outlook, 1a. pág., 12 de fevereiro.
Escrito por MARILIA em 01/03/2006
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24/02/2006
O post da Sônia, em Contando Causos, e a reclamação do Wagner, cansado de que “tudo acaba em política”, me leva a variar um pouco a conversa.


Não sei se é problema meu ou se atinge a mais mulheres, principalmente as da minha geração: vivemos tanto para os outros, o condicionamento era tão profundo, que não pensávamos em nós, em nossos sonhos e desejos. Como se isso não contasse.
Mesmo quem trabalhou fora a vida inteira, assumiu as responsabilidades por sua vida e dos filhos, serviu de arrimo a outros tantos, ainda assim - creio que, mais do que tempo, nos faltava ego para viver nossa individualidade, plenamente.

Deve ser cultural, deve ser o fato de, em todo o mundo, e ao longo da história, termos sido desvalorizadas. Nossa biologia, a maternidade que podia se estender ao longo de toda a vida adulta, a pressão social nos tornavam vulneráveis e dependentes: sem qualquer poder.

Assim, com raras exceções, já no primeiro momento de vida, éramos recebidas como um erro, uma decepção, um fracasso dos pais. Se a menina fosse bonita e obediente ainda poderia ser um ativo, um investimento. Mas beleza é coisa rara.
Se fosse bonita mas desobediente, poderia ser uma desgraça. Se fosse feia, seria força de trabalho. Feia e desobediente, seria uma desgraça.
De qualquer jeito, era preciso educar meninas para a obediência. Era preciso impedir qualquer manifestação de personalidade, independência, vida, inteligência nas mulheres. Por isso a educação das meninas sempre foi ainda mais repressiva e cruel que a dos meninos.
Elas precisavam se considerar inferiores, precisavam ser submissas e agradáveis; o bem-estar dos outros, mesmo em prejuízo de si mesma, era sua obrigação. Justa ou não, essa era a vida real, onde seu papel seria servir e esperar.
Ao homem caberia dar proteção, segurança, sustento, conforto, ser forte, superior, renegar emoções, tomar todas as iniciativas e todas as decisões. Expectativas altas demais que geravam sentimentos de inadequação e inferioridade. Mas havia os direitos correspondentes: os direitos de amo e senhor. E desses eles usufruíam, ainda que lhes fosse impossível cumprir os deveres correspondentes.
É para seu próprio bem, as mães costumavam dizer, sinceras e rancorosas, enquanto destruíam qualquer manifestação de vida e independência em suas filhas.
Toda a estrutura social se apoiava nisso.
Escrito por MARILIA em 24/02/2006
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18/02/2006
CONSTATAÇÃO
- Jose Nêumanne Pinto - Rádio Jovem Pan

29 milhões de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a R$0,30. Então, teremos R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais que o povo Brasileiro gastou só nesse paredão.
Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato "fifty to fifty" com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00. Repito, somente em um único paredão...".
Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e a operadora de telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas. Mas o "x" da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que paga-se para obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, consequentemente, daqueles que só bebem nessa fonte.
Certa está a Rede Globo. O programa BBB dura cerca de três meses. Ou seja, o sábio público tem ainda várias chances de gastar quanto dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural para quem gasta mais de oito milhões numa só noite! Coisa de país rico como o nosso, claro. Nem a Unicef, quando faz o programa Criança Esperança com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro.
Vai ver deveriam bolar um "BBB Unicef". Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova disso é que na Inglaterra pensou-se em fazer um Big Brother só com gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na última eleição. Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal e, que não perde um capítulo sequer do BBB para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto. Que eleitor é esse? Depois não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá?
Claro, o mesmo eleitor do BBB. Aí, agüente a vitória de um Severino não-sei-das-quantas para Presidente da Câmara dos Deputados e a cara de pau, digo, a grande idéia dele de colocar em votação um aumento salarial absurdo a ser pago pelo contribuinte.
Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura, filosofia ou de qualquer assunto relevante para melhorar a articulação e a autocrítica... Chega de buscar explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a elite, os políticos, o Congresso.
Olhemos para o nosso próprio umbigo, ou o do Brasil. Chega de procurar desculpas quando a resposta está em nós mesmos. A Rede Globo sabe muito bem disso, os autores das músicas Egüinha Pocotó, O Bonde do Tigrão e assemelhadas sabem muito bem disso; o Gugu e o Faustão também; os gurus e xamãs da auto-ajuda idem. Não é maldade nem desabafo, é constatação...
Escrito por MARILIA em 18/02/2006
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Vamos comparar
Segunda-feira é Feriado Nacional aqui nos States. Dia do Presidente. - Do Bush? Me espantei. - Não. É que havia dois feriados em fevereiro, em homenagem aos Presidentes G. Washington e A. Lincoln. Como eram muito próximos - acho que dias 11 e 22 - resolveram juntar os dois e comemorar uma vez só. Dia do Presidente. Muito bem.
Nós brasileiros acreditamos que temos mais feriados que qualquer outro povo. Não sei não. Esta crença apenas nos faz sentir piores que os outros. A quem isso interessa?
Escrito por MARILIA em 18/02/2006
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14/02/2006
André Petry
A favor da blasfêmia

"Temos o direito de criticar, negar, satirizar
o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e
Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e
toda a imensa fileira de deuses e deusas
que a humanidade criou e criará"

Atenção, amantes da liberdade: autoridades religiosas estão tentando aproveitar a crise das charges dinamarquesas para suprimir o sagrado direito à blasfêmia. Os chefes islâmicos, com sua absoluta ignorância sobre o que é um Estado laico, exigem que o governo da Dinamarca se desculpe publicamente pela publicação das charges. Não compreendem que o governo não tem do que se desculpar porque não tem a mínima responsabilidade sobre o que publica ou deixa de publicar um jornal independente. Se o governo dinamarquês cair na cilada estará decretada a vitória do atraso: a tutela do Estado sobre a imprensa e, no rastro dessa miséria, a restrição da liberdade de crítica à religião.

Autoridades católicas também tentam arrancar um naco da liberdade de expressão. O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, fez questão de solidarizar-se com os muçulmanos porque, entre outras razões, a própria Igreja Católica gostaria de restringir o direito à blasfêmia dentro de seus domínios. No mesmo texto em que defende os censores islâmicos, o jornal reclama de uma peça de teatro em cartaz em Madri, na Espanha, que satiriza o papa e "incita à apostasia".

É curioso que, na semana passada, a imprensa brasileira tenha começado a se encantar com a censura religiosa. Mesmo depois de tantas bandeiras queimadas, prédios depredados e vidas perdidas, continuaram a aparecer artigos, colunas e editoriais defendendo as trevas. Sustentava-se que as charges são grosseiras e sua publicação é uma irresponsabilidade, que os desenhos são uma incitação ao ódio religioso, que a Europa está ficando islamofóbica, que defesa da liberdade de expressão nesse caso não passa de um sofisma idiota e até que – supremo horror – o Ocidente perdeu o valor do sagrado. São idéias ingênuas. Ou espertas demais.

Não importa que as charges sejam grosseiras (e são). Não importa, para efeito desta discussão, que a Europa esteja dando sinais de islamofobia (e está). Não importa que a explicação do jornal dinamarquês para publicar as charges – medir até onde os chargistas ousariam ir na sátira ao profeta Maomé e ao islamismo – seja juvenil. Na democracia, temos o direito à blasfêmia. Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.

A blasfêmia é o antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite à imaginação e ao trânsito de idéias do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de fossilizar-se. A liberdade de blasfemar é essencial porque deus, seja ele qual for, é uma idéia, e não um dado da realidade. E temos o direito de criticar, negar, satirizar toda e qualquer idéia, desde que ao fazê-lo não incitemos ao crime. Se não houver direito à blasfêmia, então devemos rasgar os versos de Dante Alighieri e Fernando Pessoa, queimar os filmes de Godard e de Theo van Gogh, incinerar os livros de Salman Rushdie, quebrar os pincéis de Giovanni de Modena e destruir os afrescos da Basílica de São Petrônio em Bolonha...

Temos o direito sagrado à blasfêmia, assim como, pelo mais elementar princípio da tolerância religiosa, temos o direito sagrado de acreditar em Deus e reverenciá-lo. Ou não.
André Petry
Escrito por MARILIA em 14/02/2006
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12/02/2006
MANIAS

Quando li o blog do Tambosi (link ao lado), achei que não conseguiria identificar minhas manias. Mas não se passou um minuto, e elas saltaram na minha frente, se exibindo como num carro alegórico.
Aqui as mais salientes:

1. Costumo cantar na rua quando estou sozinha. (Com as filhas também, mas aí elas fingem que não me conhecem. Desde pequenas!)
2. Para meu grande pesar, atraiçoo a música sistematicamente. Tenho cordas vocais indomáveis e até meus ouvidos se ressentem.
3. Quando a memória vacila, o que é sempre, preencho as letras das músicas com palavras minhas. Respeito a sonoridade dos versos mas o resultado é, muitas vezes, ultrajante. Nesse caso, olho para os lados, disfarçadamente, a ver se há testemunhas, e sigo em frente. Quando percebo, lá estou de novo, abrindo o peito: pode ser uma ária – nada me intimida! – ou Botei Meu Sapatinho Na Janela do Quintal.
4. Não ouço rádio. Quase não ligo a televisão. Gosto de silêncio.
5. Cid Moreira me deixa de cabelo em pé. Seu brilho, voz redonda, riso de marionete, exatamente os mesmos, esteja falando de tragédias ou anunciando uma premiação, me aterrorizam. O pior é que ele faz escola. Implicância minha. Mania. Mas não tem jeito.

E agora, os escolhidos para continuar a brincadeira:

SONIA
WAGNER,
ADELAIDE AMORIM,
NORA BORGES
LUIS MANOEL.
EFIGÊNIO MARCOSI


PS: Seis indicados, graças ao precedente aberto por meu dileto guru, Tambosi
. :)
Escrito por MARILIA em 12/02/2006
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11/02/2006

Sobre os comentários do último post:


1. Não concordo que os americanos sejam mais competentes e trabalhadores que os brasileiros. Isso é difícil comprovar e a observação dos fatos não confirma.
Sempre ouvi falar que temos muito mais feriados que eles. Não tenho as listas para comparar mas posso dizer que aqui, nos dias em que cai muita neve, tudo pára, governo, escolas. Na prática são feriados, embora não constem dos calendários.
Feriado, se cai no domingo, passa pra segunda-feira. No Brasil, essa moda começou não faz tanto tempo. Copiamos daqui, com certeza.
Semana Santa parece que eles não têm. Mas o Dia de Açao-de-Graças é na quinta, e todo mundo emenda.
Normalmente se trabalha até às quatro, com meia hora para almoço. Nós trabalhamos até as seis e meia. Pelo menos.
As férias escolares de verão aqui também são longas - quase três meses.
E, por outro lado, vai passear pelas ruas do Rio, por exemplo, num sábado, no fim da tarde! No Rio onde, no imaginário nacional, só tem folgado. Você vai ver as ruas cheias de gente humilde saindo do trabalho – começando, finalmente, seu fim-de-semana.
É fácil identificá-los: lavados, cabelo lambido, bermudão surrado em cima das canelas finas, sandália de borracha; um pingo de tinta atrás do braço - escapou da limpeza feita no tanque de alguma área de serviço, mochilas com ferramentas, rolos de fios, alguma coisa sempre conta o que andaram fazendo. Tem jeito cansado mas estão sempre contentes - afinal, é sábado e eles têm emprego – não estão desempregados. Nos pontos de ônibus vão se juntando as vendedoras de lojas, depois as empregadas domésticas, as manicures, cabelereiras, toda essa multidão invisível que torna possível nossa vida.
Como não adianta falar, sem amparo de números, lembro um dado emblemático que todos conhecem: o Brasil é campeão mundial em reciclagem de latinhas de alumínio. Reaproveitamento de praticamente cem por cento. Isso poderia até significar uma admirável consciência ecológica, mas sabemos que não é. Milhares de pessoas vivem disso. Farejam eventos ao ar livre, reviram lixos, espreitam quiosques, investigam ruas, praias, catando latas, papelão, qualquer sobra da festa que lhes garanta o sustento. Nas praias cariocas – gostaria de ver um censo sobre isso – têm mais gente trabalhando que deitado na areia.
Só para terminar: a quem interessa a crença em nossa inferioridade?

2. No Sul de Minas, um rapaz de vinte anos, com segundo grau completo, angustiado com a falta de trabalho, ouviu falar de emprego com carteira assinada e salário mensal, na propriedade de um grande fazendeiro, na cidade vizinha.
Resolveu encarar, sob os protestos da mãe. - Não tenho medo de trabalho, ele disse. – Aprendo, não pode ser difícil: capino, guio trator, tiro leite, limpo chiqueiro, o que eles mandarem. Qualquer coisa é melhor do que ficar desempregado.
Às seis da manhã, na saída da cidade, passou o caminhão, recolhendo os candidatos. A carroceria já estava quase cheia. Sem banco, nem capota, nenhum requisito de segurança. Mais umas paradas, e a lotação estava esgotada. Os rapazes mais franzinos foram deixados pra trás. Já tinha gente de sobra. Pegaram uma estrada de terra e o caminhão seguiu em frente, sacolejando muito.
Desceram na entrada da fazenda. Um capataz levou o contingente até o pé de um morro coberto de mato e pés de café. Cada rapaz recebeu a tarefa de capinar duas ruas: uns 800 metros de ida, outros 800 de volta. Era pra deixar o chão limpo, preparado para a colheita.
Às cinco da tarde, sem lhes ter sido oferecido nem um cópo de água, recolheram as enxadas, deram 10 reais pra cada um, e os dispensaram. Para a colheita iam contratar outros caras. Os rapazes protestaram mas fazer o quê? Acabaram subindo no caminhão, revoltados, esfomeados, humilhados. E ficou por isso mesmo.
Café ou cana-de-açúcar, Minas ou Pernambuco - as diferenças regionais não existem quando se trata da doença que nos aflige.

3. Há uns dois anos, um rapaz que mora, desde garoto, nos Estados Unidos, estava em Petrópolis, visitando uns parentes. Na hora de voltar para o Rio, viu o pessoal preocupado em descer logo, antes da cinco, senão ia ser muito perigoso. Por que? Ele quis saber. Aí lhe contaram dos assaltos. A partir das cinco da tarde, era praticamente certo: o carro vinha descendo, dava com uns pneus ou galhos na pista. O motorista tinha que descer para abrir passagem, porque não tinha outro jeito. E pimba. Assaltantes mascarados surgiam da encosta e limpavam os passageiros. Isso quando não decidiam ficar com o carro. Nem os ônibus escapavam.
O rapaz ficou perplexo. Comentou que numa situação dessas, os americanos teriam atitude oposta. Esperariam a hora certa para descer em comitiva, e armados, enfrentariam os bandidos.
Não vai aqui nenhuma sugestão, só um ponto para refletir: nossa cultura é de aceitação, tolerância ou servilismo e covardia? Até que ponto, até quando?
Nenhuma mudança virá da elite, claro, nem dos mais pobres, que mal conseguem lutar pela sobrevivência. Sobra a classe média.

4. Wagner: há pesquisas e descobertas de novas fontes de energia menos deletérias, renováveis, etc. Este site dá uma pista: http://www.fuelcells.org/
Escrito por MARILIA em 11/02/2006
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08/02/2006
Novo ciclo da cana-de açúcar.

Bill Gates e os donos do Google estiveram no Brasil porque vão investir no etanol, é isso?
Já são donos da informação. Agora investem num combustível que pode ser plantado.
O Brasil tem terras extensas e cultiváveis, tem clima propício. Em se plantando...até mamona, que é como praga, vira óleo diesel.
Combustível alternativo é absolutamente vital para a Europa e os Estados Unidos - que também não têm água bastante para hidrelétricas.
Nós temos tudo. E esse é, provavelmente, um dos nossos grandes problemas.
Vamos saber capitalizar a tecnologia que desenvolvemos com o álcool nesses trinta anos? Duvido. Talvez nos tornemos, mais uma vez, apenas fornecedores da matéria-prima. A preços manipulados na bolsa de Chicago.
Escrito por MARILIA em 08/02/2006
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04/02/2006
Santos Dumont X Irmãos Wright

As fábricas de carro aqui estão fazendo o maior alarde sobre a possibilidade de substituição de parte da gasolina por álcool, como combustível. A coisa é apresentada como uma grande novidade! Estão pesquisando, investindo pesado; inventando a roda.

Não se ouve falar que o Brasil já faz isso há uns 30 anos.
Se o que o Brasil fez para se ajustar às primeiras crises do petróleo tivesse sido feito nos Estados Unidos, o mundo inteiro, e nós principalmente, estaríamos babando de admiração pela competência, criatividade, brilho desta gente.
Mas fomos nós, então não vale grande coisa.
Daqui a pouco, por qualquer detalhe, ainda temos que pagar royalties.
Escrito por MARILIA em 04/02/2006
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30/01/2006

Policia

As pessoas aqui cumprimentam os policiais com deferência; referem-se a eles com respeito e confiança. Tive vontade de rir quando observei isso pela primeira vez. Um riso dolorido, igual ao daquela nordestina da piada, a que veio andando para o sul, fugindo da seca. Ela foi atacada no caminho, lutou, perdeu seus poucos trastes e ainda ficou com uma faca atravessada no peito. Mas continuou firme. Andando. Um turista que andava pelo sertão viu aquilo e ficou chocado: “Mas como a senhora aguenta, a senhora não sente dor?” “Não, senhor, só dói quando eu rio”, ela respondeu. É a cara do brasileiro, essa nordestina.

E’ serio. Os policiais são realmente respeitados. “O governo de Washington tem um sistema de incentivos para que os policiais possam comprar sua casa na cidade. Assim, eles nao têm que enfrentar horas no trânsito. Eles, infelizmente, não ganham tão bem assim”, Mike me explica. “A idéia é facilitar a vida do policial, torná-lo parte efetiva da comunidade em que trabalha – ele se torna conhecido e passa a conhecer bem seus vizinhos. A comunidade vê nele uma segurança extra”. E, naturalmente, os vizinhos também vigiam o policial.
Um bom sistema, uma medida simples. E parece que funciona. Deve haver regras complementares muito bem feitas, senão ia virar bagunça. Os policiais iam fazer contrato de gaveta e trocar de casa todo ano. Iam ficar ricos so’ com isso. Se não acontece, e parece que não, e’ porque a punição deve ser exemplar.

Outro dia vi um carro de policia no estacionamento do supermercado. Olhei para o carro e olhei para Mike. Ele disse: “ às vezes os policiais são autorizados a usar o carro em assuntos particulares pq eles não ganham o bastante para ter dois ou três carros. Eles têm autorização para isso.”

Eles têm autorização. Com que segurança ele diz isso! Pergunto: “você acha que há corrupção na polícia daqui?” “Não, não. Aqui não tem.” Não escondo um sorrisinho de ironia. Ele diz:”pode ser que haja uma coisa mínima, eventual, mas não, a polícia aqui é muito séria, muito eficiente. E não são corruptos”, e’ categórico.

Denegação e’ o que a avestruz faz quando enfia a cabeca na areia para não ver a realidade, o perigo e, com isso, expõe o meigo traseiro ao fogo inimigo.
Mike não parece viver em denegação em relação a seu país. Lê muito, sabe como os Estados Unidos atuam na política externa.
No entanto, ele acredita seriamente nas suas instituições. Na polícia!
Como será viver 53 anos, acreditando nas instituições do seu pais? Como será a estrutura mental de uma pessoa que se sente protegida pela polícia, que confia na policia! Até a química dos neurônios deve ser diferente.


No entanto, nós temos no Brasil muitos policiais sérios. Heróicos. Haja coragem para enfrentar o que eles enfrentam.
E sabemos que os Estados Unidos são um país violento e muitas vezes, ao longo da história, o crime desafiou a lei, se infiltrou na política, comprou juízes, o de sempre, o ser humano é sempre a mesma coisa.

Mas a maneira de reagir, de enfrentar as dificuldades faz a diferença. Aqui há lei e há punição, e não importa a idade do réu, ou a classe social, ou cargo no governo: todos respondem por seus atos.
Escrito por MARILIA em 30/01/2006
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27/01/2006
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Altos e Baixos

Na primavera, fomos conhecer uma casa de arquitetura famosa (FallingWater), em Uniontown, no estado da Pensilvânia, a umas quatro horas de Washington, DC.
A estrada é toda vales e encostas verdes, tudo cultivado. Um paredão na linha do horizonte, um muro reto quilométrico, coberto de floresta, nos acompanha boa parte do caminho. Penso nas encostas sombrias da Serra do Curral, feita de ferro. Deve estar agonizando. E a Serra do Rio do Rastro, em Sta Catarina. Solene, deslumbrante! Onde quer que se vá, nosso país vai junto.

A casa que fomos conhecer, do arquiteto Frank Lloyd Wright, fica em cima de uma cachoeira, e tem soluções de engenharia admiráveis para uma contrução de 1937. Integra-se bem à natureza com linhas leves, cimento armado e vidro. Causa impressão vista de fora, mas é frustrante do lado de dentro: impessol, fria. Moderna.

Os terraços sobre a queda d’água são o ponto alto. No mais, os quartos pequenos e baixos, muito cimento, e infiltração em todos os cômodos a tornam opressiva. A guia diz que os quartos foram construídos com pé direito tão baixo para forçar os convidados a se reunirem nos terraços. Difícil acreditar. No curto verão, há mosquitos insaciáveis, mesmo na cidade. No resto do ano não há mosquitos mas deve ser impossível agûentar o frio ao ar livre.

As visitas são feitas em turmas, com guia, e a intervalos tão curtos que não se pode atrasar apreciando, por exemplo, a quina de parede feita só com vidros, sem moldura, para não interromper a vista do verde.

No final, o grupo é reunido para assistir a um vídeo rápido. A casa foi construída para o dono de uma loja de departamentos de Pitsburg; passou direto da condição de casa particular para museu sob os cuidados do Estado, e tal. Quando acendem as luzes, uma senhora está a postos para pedir dinheiro, doação, ajuda, contribuição, o que seja. Dá o recado, encerra a visita e e sai. Tempo é dinheiro. Saímos também.

Do lado de fora, à sombra das árvores, umas senhorinhas de cabelinhos de algodão, camafeu nas golas de seda, e prancheta na mão, cerceiam com olhares doces, insistentes, os possíveis contribuintes. Respondemos aos cumprimentos e passamos direto. Observei os outros para verificar quantos teriam se sensibilizado com o pedido.
Ninguém, enquanto olhei.


* Tem foto dessa casa no blog do Luis Manoel, http://assumpreto.zip.net/index.html. Não sei por foto! :(
Escrito por MARILIA em 27/01/2006
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24/01/2006


Bebi demais e não paguei o IPTU
(Daniel Escobar)

Depois das experiências políticas quase transcendentais às quais
fomos submetidos em 2005, decidi fazer tudo diferente no próximo ano. Já
estou escrevendo minha lista de promessas de 2006. Para começar, em
janeiro tem o IPVA do carro. Decidi que não vou pagar.
A exemplo do presidente Lula, vou dizer que não sabia de nada. E vou
além: quando for cobrado, direi que fui traído. Por isso não paguei o
IPVA.
Mais adiante tem a declaração do imposto de renda. Já decidi não
relacionar o infeliz do carro, que estará com o IPVA atrasado mesmo.
Mas ao invés de patrimônio sonegado, vou chamar de patrimônio não
contabilizado. Se caixa dois foi perdoado porque foi chamado de dinheiro
não contabilizado, por qual motivo seria eu condenado por não declarar
um carro? Ainda mais com o IPVA atrasado?
Mas a melhor alegação será a que irei usar para não pagar o IPTU:
vou dizer que bebi demais e não tive condições de ir ao banco. E olha
que são doze prestações! Vou passar o ano bêbado! Pelo menos foi essa a
desculpa apresentada pelo ex-assessor de Antônio Palocci, Vladimir
Poleto, para - pasmem - desmentir-se quanto às denúncias feitas
anteriormente sobre a gestão de Palocci em Ribeirão Preto.
O presidente da República pode dizer que não sabe que mesadas eram
pagas a parlamentares no gabinete ao lado do seu. Os partidos de
situação e oposição podem fazer caixa dois, chamá-lo de dinheiro não
contabilizado e ninguém é punido. E, finalmente, um cara-de-pau diz em
uma CPI que nada do que disse deve ser levado em conta, porque tinha
tomado umas "cachacinhas", sem que seja preso.
Com todos esses exemplos, por que eu, que pago direitinho todos meus
impostos, deveria temer uma saída da linha? E olha que citei apenas
algumas das pérolas desfiladas ao longo deste ano. Se for usar todo o
arsenal (que inclui ainda o transporte de dinheiro em cuecas e caixas de
bebidas), serei obrigado a sonegar cada centavo dos cinco meses que
trabalho somente para pagar tributos neste país. Que venha 2006!


Daniel Escobar é jornalista em Brasília

Escrito por MARILIA em 24/01/2006
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23/01/2006

México é um bom contraponto para o cenário de shopping center que se tem aqui.
Ruinhas fervilhantes que desembocam em praças amplas, lindas como a de Zocallo; avenidas largas, bem desenhadas, igrejas seculares, pátios internos, arcos bizantinos, prédios espelhados que poderiam estar em Dallas ou Bancoc, ruínas de cidades de mais de mil anos, e favelas imensas – a paisagem urbana nem sempre é harmoniosa mas é intensamente viva e humana.
As ruínas deixadas por povos pré-astecas são cidades impressionantes em sua concepção de espaço urbano, nos conhecimentos de geometria e matemática, de arquitetura, engenharia e astrologia. Como não há respostas satisfatórias para as questões que elas propõem, a imaginação viaja. O Museu de Antropologia reúne boa mostra da arte dos povos que habitaram a região antes que os espanhóis chegassem e destruíssem tudo.
No mais, a impressão que tive é que o o Nafta não acrescentou muito à economia do México. E como o Nafta prevê livre comércio, mas não livre trânsito, muitos mexicanos continuam a fazer qualquer negócio para cruzar a fronteira. É que o salário mínimo no México é de quatro dólares por dia. Nos Estados Unidos é de oito a hora. Oito dólares na teoria. Na prática, uma babá ganha doze a 15. Uma faxina doméstica de duas, três horas custa 80, 100 dólares.

Este ano o México também têm eleições presidenciais. Se me basear nas conversas com motoristas de táxi, vai ganhar o Lopes Obrador, do PRD, Partido da Revolução Democrática.
Os mexicanos estão empolgados com ele: “ele é como qualquer um de nós, ele dirige um carro como esse aí (um carro médio), e ele mesmo dirige, sem seguranças, sem nada.” Este é o comentário que mais se ouve. Não sei como isso qualifica alguém para ser bom presidente. É incurável nosso amor ao populismo mais chinfrim, mais batido, mais barato. Compartilhamos essa herança ibérica e sabemos o preço alto que se paga por termos essa visão de humílimos vassalos.

***


Minha filha e eu fomos ao Consulado Brasileiro para transferir nossos títulos de eleitor para cá. Pensei que bastariam o passaporte e o título. Passaporte é um documento mais que completo, aceito para todos os efeitos em qualquer lugar, certo? Errado. Além do passaporte e título, eles exigem carteira de identidade e certidão de casamento ou nascimento, originais. E comprovante de residência. Perguntei porque tantos documentos. É para provar que você é brasileira meeesmo, a funcionária disse. Com os olhos redondos de espanto, tratamos de reunir os documentos. Marcaram a entrega da documentação e formulário respectivo para dentro de duas semanas, entre onze e uma hora. Nem antes, nem depois, nem outro dia.
A rua do consulado é uma ladeira estreita, e estava intransitável. A polícia a postos, distribuía multas como quem cumpre uma rotina. Toda semana é a mesma coisa, disseram.
Dentro do consulado, a situação era pior: um pandemônio em que ninguém se entendia, funcionários tão atrapalhados que não usavam nem o microfone para chamar o número das senhas – não há indicação visual que qualquer lugar tem, até a mais modesta franquia dos nossos correios, por exemplo – e isso fazia com que as pessoas se afligissem, perguntando uns aos outros que número estava sendo chamado.
Havia gente, provavelmente agente de viagem, com pilhas de passaporte para obtenção de visto brasileiro.
Foram duas horas em pé, num recinto pequeno e fechado. Muito frio do lado de fora, abafamento e tensão do lado de dentro. Duas horas para entregar os documentos e receber o protocolo. Por que uma atividade tão simples se torna caótica? A resposta seria o diagnóstico de muitas de nossas desgraças.
Mas teve um lado bom. Sempre tem. As saudades daí, que estavam incomodando, se desfizeram como brisa.

Ps: Questões familiares me afastaram daqui mto mais tempo do que eu pretendia. Finalmente voltei! >

Escrito por MARILIA em 23/01/2006
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29/12/2005
Deus criou o mundo há seis mil anos (precisamente), em seis dias de trabalho, depois descansou, afirmam os criacionistas, a sério.
Ken Ham é um expoente desses cristãos fundamentalistas. Tem 53 anos e trabalha há onze na construçao do Museu da Criação, no norte de Kentucky, uma obra de US$ 25 milhões, e que deve ficar pronta em 2007.

Eles defendem a interpretação literal da Bíblia, do Gênesis, no caso, já que estamos falando da criação. Deus criou céu, terra, o homem à sua imagem e semelhança, e depois ficou exigindo provas de amor, de adoração, de obediência, e dando castigo, fazendo cenas terríveis. Para acalmá-lo era preciso matar e assar um bode ou uma ovelha. Ele gostava do cheiro, etc. (Gen. 8:20)

A outra teoria - depois de Copérnico, Galileu, Newton e das revoluções liberais – a dos evolucionistas, de Darwin, defende que tudo está em evolução e que sobrevivem os mais fortes através de um processo de seleção natural. Baratas e ervas daninhas, por exemplos, estariam entre os eleitos, pois têm sobrevivido a tudo, apesar de combatidas através dos tempos. Nada é perfeito.

Mas há outra teoria, acho que foi lançada por um humorista, e que me parece mais coerente com nossa história:

A Terra é um organismo vivo, em constante movimento e mudança, como tudo no universo. Nós humanos seríamos um vírus, uma doença que atacou o planeta. Os tsunami, furacões seriam reações da Terra, suas tentativas de se livrar de nós. De se curar.

Nem a inteligência, que supostamente temos, faz de nós virus especiais. Somos, como qualquer virus. Estamos destruindo nossa hospedeira sem pensar nas consequências. Sem considerar que não temos outro lugar para ir.

E, como células doentes que somos, nos reproduzimos furiosamente, e quanto mais crescemos, mais se ampliam os campos cultivados, os rebanhos de gado, porcos, que depois dos carros, dizem, são os maiores poluidores do planeta.

Mas há um ponto que não fecha aqui também: por mais destrutivos que sejamos, há em nossa espécie uma busca espiritual constante; somos movidos por nossos desejos de beleza, justiça, verdade e poesia. Somos uns virus que sabem de si, sabem do tamanho imensurável do tempo e do espaço no universo.
Isso é intrigante.

Pendurados no pincel, portanto, nada impede que cada um escolha sua crença. Porque conhecimentos para responder a qualquer grande pergunta ainda não temos. E vamos em frente. Com humildade para aceitar nossa vasta ignorância e coragem para, apesar disso, e por causa disso, viver intensa e alegremente. Compaixão, solidariedade, amor também seriam benvindos. Afinal somos todos companheiros de viagem. Nossa casa, nossa história, nosso barco, nosso destino é o mesmo.
Então, queridos, feliz 2006!


PS:Amanhã cedinho, estarei indo para o México com a turminha toda. OOOOO- BAAAA!
Luis Manoel, anotei sua encomenda!
Escrito por MARILIA em 29/12/2005
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26/12/2005
Grandes e Pequenos Homens

Há homens de todos os tipos: zen, histéricos, batalhadores, profissionais, chatos, frescos, inteligentes, gostosos, parasitas, sensacionais.

Homens de origens diversas, de idades várias, homens de posses ou de grana curta. Homens de tudo quanto é jeito. Mas se eu fosse mulher prestaria atenção apenas num quesito: se o homem é do tipo que puxa pra cima ou se é do tipo que empurra pra baixo.

Dizem que por trás de toda grande mulher existe uma grande homem. Meia-verdade. Ela pode ser grande estando sozinha também. Mas com um homem xarope ela não vai ter que lutar muito mais.

Homem que puxa pra cima é homem que aposta nas decisões da mulher, que não a desqualifica sutilmente o tempo todo, que não faz interrogatórios todos os dias, onde esteve, com que, você chegou meia hora mais tarde! E ainda fica emburrado.

Homem que empurra pra baixo é o que compete com ela, é o que tem acessos de ciúme quando ela tem que viajar, comparecer a um seminário, ou quando é promovida, é o que não avaliza nenhuma mudança que ela propõe, o que quer manter tudo como está.

Homem que puxa pra cima é o que responde quando ela pergunta, que não a perturba com questões menores, o que a incentiva a sair com as amigas, o que separa matérias de revista que possam interessá-la, o que indica livros, o que faz amor sempre e com vontade.

Homem que empurra pra baixo é o que reclama de dinheiro, o que não acredita que ela tenha taco pra assumir uma promoção, oque acha que viajar é despesa e não investimento, o que tem ciúmes dos colegas de trabalho.

Homem que puxa pra cima é a que dá conselhos e não palpite, o que acompanha nas festas e nas roubadas, o que tem bom humor.

Se por trás de toda grande mulher existe uma grande homem, então vale o inverso também: por trás de uma mulher chata e infeliz, talvez exista uma homenzinho de nada.
****

Esse post é meio sério, meio de brincadeira. Vi essa crônica, de Martha Medeiros, sobre grandes homens, no blog de Zé Carlos . http://zecarlosmanzano.blogspot.com/ Pensei que seria interessante mudar a perspectiva, por mulher onde estava escrito homem, e mais umas pequenas alterações, só para arejar os olhos, ver como nos sentimos vendo a mulher como gente, uma pessoa inteira, e não como alguma coisa cuja existência se dá em função do homem. Só para variar.
Escrito por MARILIA em 26/12/2005
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21/12/2005

Como nossas mães

Minha filha trabalhava no National Wildlife Federation quando ficou grávida. O lugar é bonito, fica dentro de um bosque. As paredes do prédio são painéis de vidro que refletem as árvores, o laguinho com queda d’água e plantas exóticas.
Eles publicam revistas com fotos brilhantes, cheias de vida e cores da natureza.

Minha filha gostava do trabalho: ela recrutava e treinava estagiários, divulgava a instituição nas universidades e, para isso, viajava por todo o país - o que ela adora – enfim, as perspectivas de uma bela carreira eram amplas. Mas se ela continuasse lá, o bebê teria que ficar numa creche o dia inteiro a partir dos dois meses e meio – tempo da licença-maternidade que ela teria, proporcional ao tempo de serviço.

Isso estava fora de cogitação. Ela queria cuidar do filho, pessoalmente. Queria ter certeza de que ele receberia a atenção necessária para um bom desenvolvimento físico e emocional. Queria desenvolver laços de amor e confiança que serão suas referências pela vida inteira.
Isso não se pode delegar a uma instituição e, muito menos a uma babá, porque você pode ter sorte, ou não. E o risco não vale a pena. Isso e’ o que ela pensa e por isso vim para cá, para ajudá-la, porque criar filho, nos primeiros anos, e’ um trabalho que não te permite fazer mais nada.

Quando ela avisou que não voltaria a trabalhar depois da licença-maternidade, suas chefes ofereceram-lhe todas as alternativas, vantagens e cargos.

Ofereceram tudo, menos creche. Se houvesse uma creche, no lugar do trabalho, onde ela pudesse estar com o filho sempre que precisasse, ela não teria que sacrificar sua carreira e sua autonomia.

Aqui também as mulheres ainda se confrontam com essa situação. Ccomo nossas mães, desde Eva.
Escrito por MARILIA em 21/12/2005
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18/12/2005
Maioria silenciosa
Quando houve aquele estropiado referendo sobre o desarmamento, as pesquisas iniciais indicaram uma indiscutível vitória do sim – resultado coerente com nosso jeito de ser, avesso à violência. Seria a resposta do bom senso se as instituições do País fossem confiáveis
A Globo – a quem se costuma atribuir poder de decidir as marés e os ciclos da Lua – reforçou a tendência. Usou seus profissionais de maior credibilidade, pôs até a novela das oito na campanha pelo Sim. Eram favas contadas.

Um mês depois, as urnas mostraram uma acachapante vitória do Não - uma virada de 180 graus.

Foi um espanto. O que tornou possível uma mudança tão drástica, ainda mais num País com o tamanho e a diversidade do Brasil?

Desconfio que isso teve a ver com a ampla, democrática circulação de informações pela internet. Tivemos acesso ao projeto de lei, trocamos idéias, tivemos elementos para analisar a questão. Embora nem todos tenham computador, os que têm se tornam, automaticamente, formadores de opinião.

Me ocorre que nós, junto com as classes mais destituídas, sempre fomos a maioria silenciosa da população. Silenciosa porque não havia jeito de nos reunir, de conversar. Talvez haja uma peça nova no xadrez, capaz de mudar o jogo.

Ainda não faz dois meses que comecei este blog– rústico, eu sei, porque não tenho a menor intimidade com a informática – e estou encantada. Muito bom sair visitando as pessoas – as portas estão sempre abertas– e ser visitada, conversar, conhecer amigos. Como se morássemos na mesma vila.
A esses queridos novos amigos, boas festas; espero que estejamos sempre juntos e que o próximo ano seja bom para todos nós.
Escrito por MARILIA em 18/12/2005
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13/12/2005
Queria falar sobre coisas daqui, mas não tem jeito: vou continuar, só mais essa vez, sobre o mesmo assunto e, de novo, em função dos comentários:

Se o que falta não é simplesmente escola, é mais que isso, é orientação, é vontade política; se o problema é mais profundo e tem raízes na nossa história; se o sonho acalentado, nos últimos setenta anos, por nossa intelligentzia, agora posto em prática, resultou nesse espetáculo inqualificável que estamos vendo, então temos que pensar um pouco, nós mesmos. Que país nós queremos? Que escola, que congresso, que sistema de governo? Que valores desejamos para nortear nossa vida?
É como contratar, digamos, um mestre-de-obras. Se não dissermos o que temos em mente, de modo bem claro, e se não ficarmos vigiando, as surpresas serão muitas e, certamente, desagradáveis.

Nossa história se cristalizou nessa construção social perversa em que vivemos. Eu me sentia sufocada, quando trabalhava, pela sensação de opressão, de impotência diante desse sistema cínico e incompetente ao extremo.
Nossa história é a de uma terra e de um povo saqueados pela classe no poder. Desde sempre, e explicitamente. É só olhar. Até nas invasões holandesas, que alguns lamentam que não tenha ido adiante. Nassau, individualmente, queria construir, tentou fazer aqui alguma coisa, provavelmente sonhava com um império para ele (foi tudo queimado, pelo que vi). Mas foi pressionado pela Cia das Índias que queria lucro, lucro, e já, e muito, e tudo, e que se danasse o resto. No fim, eles foram mais deletérios, mais destruidores que os portugueses. E D. João? Homem sagaz, apesar de tudo o que se diz dele. Sabia se cercar de gente muito inteligente. Deu um drible em Napoleão e veio pra cá com seu bando de parasitas, os cortesãos. Fez e construiu muita coisa importante, no Rio principalmente. Mas já chegou expulsando das melhores casas seus proprietários para alojar sua canalha. E quando foi embora, limpou o Banco do Brasil. Nada é novo, nossa história se repete desde sempre.
Temos vivido sob o desrespeito, a violência e a espoliação das classes no poder.

Nossos valores são, claro, resultado disso também, dessa teia, dessa ideologia que sustenta esse sistema. Nasci em Minas, vivi dez anos em Brasília, um ano e meio em Sta Catarina e morei a maior parte da vida no Rio. Há valores acalentados apaixonadamente pela midia, como a indisciplina, a malandragem, a “esperteza”, ou brutalidade de ídolos do futebol, por exemplos, ou ainda, a exploração grosseira, banal, excessiva da excitação sexual, etc, que não encontram eco em culturas com formação diferente das dos polos culturais onde essa mídia tem sede. Soam mesmo estranhos e desconfortáveis em outras regiões do País.


Mas, apesar de tudo, resistimos. De cabeça baixa e falando pouco, tratando todo mundo de senhor doutor, de coronel, de patrão. Porque vivemos quase toda a nossa história sob ditaduras, sob o pleno desamparo e violência do poder público. Pensar sobre isso, dar um primeiro passo para a mudança, é uma tarefa quase impossível. Mais fácil seria combater moinhos-de- vento. Mas temos que tentar, não podemos continuar delegando aos outros, cegamente, ingenuamente, nosso destino.

Escrito por MARILIA em 13/12/2005
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07/12/2005
Pensando nos comentários do último post:


1. O Brasil dói em nós. Passou a fase em que fazíamos humor e ficava tudo por isso mesmo.
2. Crime é resultado de pobreza? De falta de educação? Pode ser que sim, se o crime for roubo de pão, de remédio essencial. Mas não se pode generalizar porque isso não corresponde aos fatos. Estão aí muitos de nossos políticos, de nossa elite, dos ocupantes dos altos cargos, nos três poderes, que não nos deixam mentir. E do outro lado, estão os milhões de pobres. Me atrevo a afirmar que a grande maioria do povo brasileiro é honesta. Sempre convivi com gente íntegra, desde meus pais. Raramente trabalhei ou conheci gente completamente cínica e amoral como esses que estão no noticiário todos os dias. E não é possível que eu seja exceção.
3. Nosso traço cultural de vitimizar o criminoso é um imenso desserviço que prestamos a todos nós. Não leva a nada. É destrutivo. Atrapalha o diagnóstico do problema e, portanto, atrapalha a solução. Essa confusão no cenário só interessa aos políticos que temos, e aos criminosos, claro.
4. Se nossa atitude fosse “Toda ação tem consequência. Cada um tem que responder por suas ações. E, além disso, todos somos responsáveis por nossa comunidade e nosso país”, isso faria muita diferença.
5. Educação é prioridade – esse é um consenso antigo, unanimidade mesmo. Se até as pedras sabem, com certeza os políticos sabem também. Países subdesenvolvidos que se tornaram grandes nações em dez, vinte anos, já demonstraram que esse é o caminho.
6. Agora, como seria essa educação? Sabemos que investir em educação não é apenas construir prédios. Ter lugar apropriado ajuda, mas não é prioridade. Escola se faz até nos quintais das casas.
7. Fundamental é ter professores, treinados, motivados, e pagos decentemente. É transmitir valores que nos transformem em pessoas, em um povo que se respeita – como o do número 4 acima.
8. Importante ter regras que funcionem direito. Isso de não haver mais repetência é fora da realidade – a vida real não é parquinho de diversões.
9. Importante é o curriculum escolar. O que deve abranger? A nossa ignorãncia é de amplíssimo espectro. Me lembro de uma contínua, que morava no Rio há mais de 30 anos, e que veio me perguntar como se curava umbigo de nenem, pq ela teria seu primeiro neto e não queria que o umbigo infeccionasse como aconteceu com todos os seus filhos. Ela tinha cuidado dos meninos dela com cinza misturado com cuspe, essas coisas.
10. Quando foi anunciado o FomeZero, e ainda havia fé e esperança, pensei, a campanha para funcionar de verdade teria que ser: FomeZero, FilhosDois, (no máximo), EducaçãoDez. De novo, não foi dessa vez. Mas ainda vai ser.

Escrito por MARILIA em 07/12/2005
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04/12/2005
Outro dia, de manhã, passando pela Avenida Pensilvânia, a uns três quarteirões da Casa Branca, vi uma fila de gente mal ajambrada, uns vinte e cinco adultos, todos muito quietos, meio tensos – nenhum papo entre eles. Pensava em puxar conversa, descobrir que fila para o Hades era aquela, quando parou uma van, e desceram algumas pessoas com panelões de sopa, pratos, pão. Era uma fila de homeless, os sem-teto.

Criança, nunca vi uma sozinha, perambulando, nem durante o verão. Não tem criança vendendo balas noite adentro, nem fazendo malabarismos nos sinais, nem se drogando nas ruas, nem assaltando, nem dormindo embaixo de jornais, em qualquer canto.

Como será viver sem essa chaga, sem a culpa desse crime de que somos todos cúmplices, nós, brasileiros.

PS: Como é mesmo a lei eleitoral? Se 51% dos votos forem nulos, a eleição não vale e os candidatos não podem mais concorrer em novas eleições?
Escrito por MARILIA em 04/12/2005
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01/12/2005

Fui com Mike à festa de aniversário de um amigo dele. Depois de uns drinques e papos - eu praticamente muda e abstêmia - o jantar foi servido. Só então me dei conta que Mike e eu éramos os únicos convidados. Os outros eram a família: a mãe do aniversariante, uma senhora de uns oitenta anos, o casal anfitrião; o aniversariante, os dois filhos dele e a namorada.
Não podia continuar comodamente invisível num grupo tão pequeno. Teria que participar. Procurei um assunto neutro – nada de bush, religião, guerra, imigrantes, segregação - perguntei qualquer coisa, sobre jardinagem - eles têm um jardim bem cuidado.
Bastou isso para me acolherem entusiasticamente na conversação. Falaram do nosso futebol, “jogam com elegância, parece uma brincadeira, uma dança”. E finalmente, perguntaram se os americanos eram mal vistos no Brasil. Disse que nem tanto, que não era tão mal como na França, por exemplo. O momento era impróprio para papo sério. Mas o assunto fluiu nessa direção.
O filho do aniversariante, nos seus vinte anos, se disse aliviado por ver que nós não defendíamos Bush.
- Aqui não tem mais dois partidos políticos, ele disse. Tem o fascismo-religioso e os democratas, um banco de fracos. Não se vê uma oposição efetiva.
- Os democratas têm sido uma grande decepção. Ficam preocupados com o politicamente correto e não agem, não fazem nada, disse a mãe, Ellen. Daí para frente, quase que só ouvi:
- E o resto do mundo? Qual o estadista, qual o líder de outro país que fala alto e claro contra os Estados Unidos? (É mesmo, né?)
- Deve ser medo. Nós somos a nação terrorista líder do mundo.
- Olha o que fizeram com Noriega. Já imaginou sequestrar um presidente de outro país e enfiar ele numa prisão americana, e ficar tudo por isso mesmo? E a Nicarágua? E Guantanamo?

A conversa continuou noite adentro. Noam Chomski, Gore Vidal e mesmo Michael Moore (que consideram meio oportunista) serviram de referência e ilustração.

Há um traço que se pode observar no americano bem informado: a culpa. Eles se envergonham da atuação dos Estados Unidos na política externa. Eles sabem que o país cuida bem de seus cidadãos – ainda mais se compararmos com os nossos padrões de abandono e injustiça - mas usa sem escrúpulos todas as armas para se prevalecer sobre os outros países. Essa tem sido sua história, desde o extermínio dos índios.

Escrito por MARILIA em 01/12/2005
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30/11/2005
Os magnânimos

Aqui é grande o número de centros culturais, museus, galerias de arte, coleções de obras-primas doadas por donos de grandes fortunas. Não é que os ricos daqui sejam mais magnânimos ou mais vaidosos que os nossos. É a lei da herança – com uma alíquota de 55% - que transforma em mecenas, em filantropo até um feroz usurário. Além desse imposto, tem mais despesas e, na prática, o herdeiro não leva grande coisa. Entre deixar sua fortuna, anonimamente, para o governo, e homenagear-se, ligando seu nome a uma obra de mérito, parece que a segunda possibilidade tem sido, muitas vezes, a escolhida.
O espírito dessa lei da herança é um dos valores fundamentais da cultura deles: a idéia de que todos devem trabalhar, buscar o sucesso por si mesmos.
Excelenças, coronéis, sinhozinhos em geral, que fazem parte de nossos sonhos e mitos – Caras e semelhantes demonstram isso – aqui não fazem sucesso e não têm o amparo das leis.

PS: Não sei o que houve, mas o post anterior desapareceu. Com os comentários e tudo! Sinto muito.
Escrito por MARILIA em 30/11/2005
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25/11/2005
A favor

Li que o Brasil está se tornando auto-suficiente em petróleo. Na crise do começo dos anos setenta, a subida do preço do petróleo e a subida dos juros internacionais nos levaram à lona. Tínhamos nos endividado muito, levianamente – o tal milagre brasileiro - a juros flutuantes! O pagamento desses juros, mais a importação de grande parte do petróleo que consumíamos sufocaram a economia por pelo menos vinte anos.
Agora estamos auto-suficientes nesse produto vital para o mundo, e quando o preço do barril dispara novamente.
Aqui, a economia, o modo de viver americano dependem do petróleo. A rede de estradas, que beneficia o país inteiro, é uma verdadeira “maravilha do mundo moderno”, mas exige rios de gasolina barata. As cidades são carro-dependentes. Transporte público, a não ser nas metrópoles, é quase inexistente. Daí é esse vale tudo. Fazem qualquer negócio para manter o país abastecido, e os preços baixos. Estamos vendo isso.
Pergunto sobre os estoques que estariam guardados no subsolo. Dizem que as reservas dão para um ano, se tanto.
Enquanto isso, estamos atingindo a auto-suficiência.
São muitos os dados a nosso favor!
Escrito por MARILIA em 25/11/2005
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24/11/2005
Festa das Bruxas e Festa da Colheita

Hoje é a última quinta-feira de novembro, dia de Ação de Graças, feriado. É como a Semana Santa pra nós. Mta gente emenda a sexta, a cidade se esvazia.

No fim de outubro foi o Dia das Bruxas, outra festa importante aqui. Quase todo mundo enfeita as portas, varandas, jardins, com fantasmas esvoaçantes, teias e aranhas, símbolos bem-humorados do que nos está oculto – é o inverno que vem chegando. Adultos e crianças vestem fantasias e vão para a rua. As crianças saem de cestinha pedindo doces de porta em porta (abóbora na varanda indica que elas são benvindas). É uma grande confraternização de vizinhos.

Em novembro, a cidade cheira a frutas maduras, seiva, lenha cortada pra lareira. As árvores exibem as indescritíveis, infinitas cores do outono. Quando esse esplendor atinge o máximo, quando, por exemplo, uma árvore é só dourado, fulgurante ao sol, aí basta uma brisa, e lá se vão por terra cetro e manto. Ela se vê pelada, os bracinhos cinza, estridentes de frio, esticados para o céu. Glória e decadência num instante.
O vento que sopra nessa época é diferente do de março, que anuncia a primavera, ainda que ambos sejam igualmente frios. O vento de agora tem alguma coisa de noturno, de ameaçador, de mórbido.

Hoje é dia de ação de graças. É uma festa da colheita. Os celeiros, os silos estão cheios, tem feno armazenado para o gado, tudo pronto para durar pelo menos uns seis meses.
Ontem caiu a primeira nevezinha, quase uma garoa. É hora de hibernar, à espera de um novo ciclo, outra primavera.

Tenho visto algumas tentativas de se comemorar essas festas no Brasil. Entre nós, em outro hemisfério, elas perdem o sentido. Ainda bem que temos tantas tradições e festas, nossas mesmo.
Escrito por MARILIA em 24/11/2005
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Vitimização

Sentir-se vítima ou ver o outro como vítima é o pior caminho, me parece. Ali estão seus maiores inimigos. Os americanos pretos que escolhem uma atitude positiva ainda são minoria.
Entre esses há um jovem – parece estar nos trinta anos ainda - senador por Illinois, cujo discurso ouvi por acaso na tevê, e me chamou a atençao: Barack Obama, filho de um queniano que veio estudar nos Estados Unidos, e ficou por aqui. Ele não tem a memória contaminada pelo ódio dos que estão no país há muitas gerações. Isso com certeza o ajuda a ter uma visão mais clara e construtiva, e talvez ele consiga mudar os valores, a atitude mental negativa, sem rumo, que prejudica principalmente eles mesmos.
Barack Obama tem um currículo que impressiona, inclusive na área acadêmica. Tem mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Colúmbia, e se formou magna cum laude na Escola de Direito de Harvard. Ele está se preparando para a presidência, com certeza. É muito jovem e pode esperar vinte, trinta anos, até que o país esteja pronto para eleger seu primeiro presidente preto.
Escrito por MARILIA em 24/11/2005
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23/11/2005
A grande marcha

Todo ano, em outubro, há uma grande marcha dos homens pretos, aqui em Washington. (Me desculpem se preto não for politicamente correto, mas não consigo ver ofensa nessa palavra.) Fui lá ver, sentei na escadaria do Lincoln Memorial, que fica na extremidade oeste do Mall, onde ocorre o evento.
A proposta da marcha, segundo Farrakhan, um de seus líderes, é que os participantes "take responsibility for their lives and families, and commit to stopping the scourges of drugs, violence and unemployment" (assumam responsabilidade por suas vidas e suas famílias e se comprometam a banir o uso de drogas, a violencia e o desemprego) .
O Mall é grande demais, não conseguia ver muita coisa, apenas grupos se reunindo aqui e ali. Puxei conversa com um homem mais velho, sentado perto. Estávamos no lugar onde Martin Luther King fez o inesquecível discurso: “I have a dream.....Digo a vocês, meus amigos, que a despeito de todas as dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Sonho que um dia esta nação se levantará para viver o verdadeiro significado de seu credo: “Consideramos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais”, Eu sonho que um dia, nos morros vermelhos da Georgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos poderão sentar juntos à mesa da fraternidade...”
O fato de falar inglês com sotaque e alguma dificuldade às vezes desperta a boa-vontade das pessoas; elas se mostram menos defensivas.
Falei de M. Luther King, do discurso naquela escadaria. Ele lembrou de 68, quando King foi assassinado. Nosso povo enlouqueceu, ele disse. - Todo mundo corria pelas ruas, gritando. Ninguém podia acreditar que os brancos fizessem aquilo, com um homem como King, um homem que estava trazendo dignidade para nós, e que só falava de paz. Foi uma quebradeira, uma guerra em toda a cidade. Chegamos a botar fogo em nossas próprias casas, nossos próprios negócios. Tiraram nossa última esperança.
As feridas aqui são muito recentes.
No dia seguinte, li no Washington Post, em artigo a respeito da marcha, que 70% das crianças pretas aqui não têm pais. Ou melhor, não são assumidas pelos pais. As crianças – 70%! – são criadas só pelas mães!
Enquanto isso, os movimentos racistas dos brancos e gangues da espécie vicejam, se fortalecem.

Escrito por MARILIA em 23/11/2005
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22/11/2005
Minoria esmagadora

Passava com Luka numa calçada, ao lado de um parquinho, campo de basquete e beisebol. Havia um bando de crianças na faixa dos oito anos, brincando – todas pretas.
Era o pátio de uma escola, que também estava aberto para a comunidade.
Luka fica empolgado quando vê muita gente, especialmente crianças. Muito confiante, ele encheu os pulmões e gritou "hi ". Como ninguém respondeu, ele insistiu: "oooiiii". Continuou ignorado. Então desceu todo animado os três degraus até o campo e, caprichando no sorriso, no olhar amigo, se meteu entre os meninos. Fiquei de longe, observando.
Parecia que os garotos estavam pouco receptivos, mas à distância, sem óculos, não dava para afirmar. Quando um baixinho se pôs bem de frente para o Luka e levantou a mão fechada, como se fosse socar o alto da sua cabeça, concluí que a recepção não era boa mesmo, e chamei depressa, antes que o garoto descesse o punho como num pilão: vem aqui, querido, vem cá com a vovó.
Luka também deve ter percebido que não estava agradando porque, depois disso, parou de distribuir os his e ois por aí. Assim, com menos de dois anos, ele já incorporou as primeiras noções de vida em sociedade; no caso, de segregação.
Tudo indica que o país está falhando em promover uma verdadeira integração das "minorias".
Aliás a palavra "minoria" aqui não faz sentido. Washington tem franca maioria "afro-americana". Nem é preciso consultar o censo. Pode-se ver nos shoppings, carros, restaurantes, parques, cinemas.

* Amigos, amanhã e depois vou continuar neste assunto: aspectos do problema da segregação racial aqui.
Escrito por MARILIA em 22/11/2005
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16/11/2005
Vãos dementes

1) - Roubaram a joalheria da esquina.
- Isso é a pobreza. A fome.
- Os ladrões foram filmados. Bem nutridos, bem vestidos. São de classe média alta.
- Hmmm.

2) - Roubaram a joalheria da esquina.
- Mas roubo sempre houve! E tem algum lugar que ainda não foi roubado nessa rua?

3) – Roubaram a joalheira da esquina.
- É? Queria ver se fosse um botequim, um pé-sujo qualquer, aí ninguém estava falando nada.

E por aí vai. Assim são as discussões entre nós. Em nenhum caso se tenta um diagnóstico honesto do problema, e nunca se pensa em solução. O que se faz é o contrário: procura-se desviar do problema, culpar alguém, qualquer coisa, nem que seja um gravador, um grampo. Essa espécie de vício mental em gente instruída e bem informada é quase criminosa.
Um amigo meu, que se dizia “o último comunista” me escreveu:
“No mais, felizmente vou me desligando da zoeira política. O desgaste era grande e desnecessário. O Brasil é mais ou menos como Mussolini dizia do seu país: “Governar a Itália não só é impossível como é inútil."”
Mas como assim? Pois agora é que temos que nos ligar mais do que nunca. Agora que desistimos de esperar um salvador da Pátria. Agora que estamos - ou devíamos estar - amadurecendo como povo.
Em quem vamos votar no ano que vem?
Já entendemos que com o sistema atual - Regime Presidencialista e a Constituição de 88 - governar, decentemente, é praticamente impossível. Então, o que pode ser feito?
Escrito por MARILIA em 16/11/2005
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14/11/2005

Sempre nós levando a culpa!

A vez seguinte que saí com os Friendly foi para um brunch de domingo, num desses bufês com preço fixo. Fiquei enjoada só de ver rodelas de cebolas empanadas, ovos mexidos, salsichas, bacon, roscas açucaradas, tudo junto, em montanhas armadas nos pratos. O homem que se sentou à minha frente tinha os cabelos amassados da cama, espalhados em touceiras ralas e queimadas como um campinzal depois do incêndio. Era escritor, escrevia livros sobre crimes que de fato aconteceram, ele disse, e me perguntou se no Brasil costumávamos ler, se publicávamos livros.
– Sim, temos editoras e estamos até avançados nesse setor, não usamos mais pele de carneiro, já adotamos o papel, eu disse. Todos riram e ele se ressentiu, disse que, de fato, não sabia nada sobre o Brasil.
– Onde fica? Perguntou com olhos distraídos. Armei um sorriso condescendente:
- Não precisa se desculpar, eu entendo. A hegemonia dos Estados Unidos tornou os americanos muito ignorantes sobre o resto do mundo, é natural, não é culpa de vocês.
Foi um baixar de olhos geral. Vi que estava no limite da boa educação e tratei de suavizar, lembrando um episódio engraçado.
Contei que Reagan tinha discursado no Brasil dizendo que era um prazer estar na Bolívia. Foi um ohhhhhhhhh de constrangimento na mesa.
- Tudo bem, eu disse, o presidente brasileiro respondeu que estava honrado em receber o Presidente do Canadá.
Ahhhhh! Alívio e admiração pelo presidente do Brasil.
Todos riam, menos o tal escritor. O maxilar tinha interrompido a mastigação e pendia frouxo. O beiço caído apontava para a vasta pança. Estava imóvel mas seu olhar ruminava, grudado em mim como um mendigo bêbado.
Pode estar tendo uma crise de angina, uma apoplexia, um troço qualquer, eu o olhava meio culpada, esperando que, a qualquer momento, a cara rubicunda mergulhasse nas ruínas de molhos e restos de comida em cima da mesa a sua frente. Mas ele se inflamou de repente. Reclamou da viuvez, vituperou contra as mulheres, disse que elas tomam o trabalho dos homens mas não são grande coisa, porque são sempre eles que fazem trabalhos pesados; que elas se gabam de ser independentes e não querem mais saber dos homens, e que isso é absurdo.
As mulheres o ignoraram, brasileira e americanas, estamos cansadas deste tipo de conversa. Mas um cavalheiro, que estava no canto da mesa, um sujeito elegante, de uns 45 anos que, naquele grupo mais combalido que a tropa de Napoleão depois do inverno russo, era um gatinho, um Fábio Assunção, um Gianechini, resolveu se revelar.
Com uns olhinhos césio-azuis fundos, trepidantes de ira, disse que as mulheres estavam muito mal acostumadas, que olhássemos o Afeganistão, olhássemos como as mulheres são tratadas naquele lado do mundo, que isso é o que vai acontecer nos Estados Unidos, que com essa mania de liberdade, de direitos iguais está virando um terceiro mundo, e que basta um problema, um probleminha só, e o mundo terá que recuar, aí vamos ver, porque do jeito que está não pode continuar; que as mulheres são sacrossantas, e têm que ficar em casa, cuidar dos filhos e depender do marido, que isso é o correto, é a lei natural, é a lei de Deus.
Ninguém se deu ao trabalho de reagir à alucinação do sujeito. Mas dá o que pensar - sempre a mesma chorumela, sempre nós levando a culpa.
O encontro terminou na porta do restaurante, com despedidas rápidas e nenhuma troca de telefone ou e-mail.
Ceil saiu caminhando a meu lado. O carro dela estava estacionado perto do meu apartamento. Viemos, quarteirão depois de quarteirão, num silêncio abafado, muito longo. Quando passamos por uma livraria, fiquei contente por encontrar assunto:
- Você já leu esse livro?Perguntei. Era o Código da Vinci.
– Não! Ela respondeu: - Sou católica e o padre nos proibiu. É um livro herege, que ataca o catolicismo.
Fiquei sem fala! Tamanha submissão!
Me chamou a atenção nesse livro, justamente, o cuidado do autor, do editor, ao falar da Igreja Católica. Foram muito hábeis, sabem com que força estão lidando, e não iriam por em risco o negócio. Tiveram mais cuidado do que com o roteiro, por exemplo.
Bush, eu começava a entender, não era um fenômeno isolado. E tinha, sim, grande chance de ser reeleito.
Escrito por MARILIA em 14/11/2005
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10/11/2005
Washington, cidade dividida

1) Maio de manhã, o sol ainda baixo, resolvo caminhar até a Av. Michigan. De onde me encontro, são uns quatro quilômetros, distância ideal para um bom exercício. E sinto falta disso, das minhas caminhadas. Vou pela North Capitol, um dos três segmentos da avenida que começa no Capitol - o Congresso Nacional- e divide Washington em quatro regiões, de acordo com os pontos cardeais.
Estou, portanto, no coração dos Estados Unidos. E ando o mais depressa que posso, não pelo exercício, mas por estar cruzando uma região hostil.

A avenida e’ bem sinalizada, bem asfaltada, arborizada em alguns trechos. As casas têm dois ou três andares, fora o subsolo (basement). Apartamentos ou casas normalmente têm calefação, água tratada quente e fria, e as cozinhas vêm com os eletrodomésticos de praxe –máquina de lavar-louça inclusive. Visto de longe, está tudo muito bem. Dentro do padrão. Mas por onde ando ha’ sujeira nas calçadas, trastes amontoados em escadas, vidros quebrados, garrafas vazias nas sarjetas, janelas emendadas com restos de compensado, tufos de mato no que seria seria jardim ou gramado.
Vou em frente e, de óculos escuros, percebo olhares ultrajados, de inimigo. Um grupo de homens, com boinas e gorros coloridos, calças largas, camisas superpostas apesar do calor, ocupa a calçada e me bloqueia a passagem. Tenho que descer para a rua e faço isso naturalmente, como se eles fossem uma obra, um buraco, um acidente geográfico. Não vou passar recibo.
Assim, às vezes, quando meus olhos cruzam com olhos acusadores, eu os ignoro ou os cumprimento, simplesmente. Sem submissão e sem condescendência. Um cuidadoso meio termo. Às vezes, os bem mais velhos e as mulheres respondem. A grande maioria vira a cara.
Não e’ nada pessoal. Nunca me viram antes. O ressentimento é contra os que não são "afro-descendentes".


2. Voltando do Arboretum – lindo, com as cores do outono - Mike me diz: - “Aqui neste trecho” – de uma bela e movimentada avenida - “você não deve andar mesmo”. No quarteirão seguinte, sem qualquer diferença aparente, ele diz: “aqui ja’ e’ menos perigoso”. São áreas de tráfico de drogas que, pelo visto, têm fronteiras virtuais muito visíveis.
Aqui não tem morro, não tem barraco, mas a cidade é igualmente dividida.

(
continua)
Escrito por MARILIA em 10/11/2005
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08/11/2005
O balão rosa
Se eu ia mesmo me mudar para cá, precisaria ter vida própria, não podia ficar só de mãe e avó, dependente das meninas. Precisava, para começar, de amigos da minha idade. Assim, ainda na fase de ir e vir, antes de receber o visto permanente, as filhas me inscreveram no Friendly, um grupo que se reúne de vez em quando para jantar, dançar, ir ao teatro.
Numa tarde de domingo fui me encontrar com esse grupo pela primeira vez. O programa era um show da Kool & The Gang, uma banda antiga que mistura jazz, funk - mto boa.
Um balão cor-de-rosa seria o sinal, o ponto-de-encontro dos Friendly, já que alguns do grupo se conheciam, e outros, como eu, não.Havia uma multidão em volta do teatro. Subi a escadaria, olhei lá de cima, nada de balão rosa. As filas dobravam a esquina e iam embora. Talvez estivesse no endereço errado. Ou no dia errado. Não tinha lido jornais nem visto meus e-mails desde a véspera. Se o show tivesse sido cancelado, eu não saberia.
Escolhi um dos lados do teatro e fui para a fila.
Tentava, mentalmente, formular uma pergunta em inglês correto e casual para as pessoas na minha frente “what’s going on here” o que tá rolando aqui, não dava, muito informal, muito íntimo, ainda mais para uma senhora. Podem me dizer se é o Kool & Gang que se apresenta hoje aqui? Pior – se uma pessoa está na fila de um teatro lotado, numa tarde de domingo, e não sabe para o quê, só pode ser maluca – ainda mais com sotaque estrangeiro. Eles aqui suspeitam até da sombra.
Essas considerações já duravam quase um minuto quando uma mulher, mais ou menos da minha idade, com olhar de quem procura, se aproximou:
- Eu tinha que encontrar uns amigos, mas não consegui localizá-los. Não sei se tento mais um pouco, mas tenho medo de não poder entrar. As filas estão enormes.
Ela não se dirigiu a mim, exatamente; olhava no vago, acima da cabeça das pessoas. Arrisquei:
- Você está procurando um balão rosa?
Entre duas mil pessoas, havia cinco dos Friendly: ela, Ceil, e eu éramos duas delas.
Perguntei sobre os ingressos. Não precisava, ela disse. O show era promoção da marinha ou força áerea americana, celebração de alguma data.
Mais tarde soubemos que a segurança não tinha permitido o balão rosa, nem qualquer outro tipo de sinalização fora ou dentro do teatro. Seqüela do Onze de Setembro. Risível mas sintomático.
Ceil foi uma boa surpresa. Ela começou dançando entre as cadeiras, depois se espalhou no corredor – só ela - mais exibida e espaçosa que rainha de bateria. Fazia uns passos que imitavam vaqueiro atirando o laço, com um dos braços girando acima da cabeca, em círculos cada vez mais amplos, num movimento que nascia da cintura, do chi, diriam os iniciados em Taoísmo. Isso contrariava meu preconceito contra os americanos, especialmente louros de olhos azuis como ela.
Isso foi durante a campanha de Bush para o segundo mandato quando as mentiras sobre o Iraque já tinham sido desmascaradas e por isso poucos acreditavam que ele pudesse ser reeleito. Sondei a opinião dela nessa área, convencida de que uma pessoa tão disposta a se divertir, tão entusiasmada, só poderia ser democrata. “Bem”, ela olhou para longe e, reticente, arrastou as palavras como se fossem um fardo – parecia outra pessoa: “eu tenho que ver como o Presidente se conduz nessa coisa do Iraque, essa guerra”. Precisava ver? Não tinha visto ainda? Fiquei atônita.
Escrito por MARILIA em 08/11/2005
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06/11/2005

Como uma lança


Washington, Distrito de Columbia, é uma área pequena, demarcada entre os Estados de Maryland e Virgínia, limitado a sudoeste pelo Rio Potomac.
As avenidas Capitol, que partem do prédio do Congresso, dividem a cidade em quatro áreas, de acordo com os pontos cardeais: North Capitol, South Capitol, East Capitol. O que seria a West Capitol Avenue é a grande praça que eles chamam de Mall.
No Mall, que tem três quilômetros de comprimento, se reúne o povo para os grandes eventos, comemoração de ano novo, dia da independência, feiras e exposições.
Ali fica, de frente para a Casa Branca, o Monumento de Washington, aquele aríete solitário, pontudo como uma lança.
É um símbolo adequado para a capital deste país, mas destoa da paisagem quase bucólica, e da arquitetura em volta, mais para neoclássica, com suas colunas e pedestais greco-romanos.

Uma postura municipal não permite que qualquer construção ameace a visibilidade e o destaque do Monumento de Washington. Todos têm que ser mais baixos que os 169 metros do obelisco.
Além disso, aqui predominam as casas: townhouses e rowhouses (casas geminadas) quase sempre muito antigas, com seus telhados em ângulos agudos, janelinhas no sótão, chaminés, torres, tijolinhos, essa arquitetura que, não sei se pela simetria, ou que motivo, confortam a mente, sugerem harmonia. Todas, ou quase, têm jardim e quintalzinho. A lei permite construção em apenas 60% do terreno. Isso tudo dá a sensação de cidade de interior, de céu aberto e ar limpo.

E ainda há uma profusão de praças, parques, hortos, jardins. Tem o Rock Creek Park, que se espalha por uma das áreas nobres da cidade. Lá se pode cavalgar, pescar, fazer piquenique e caminhadas.

Numa vista geral e’ quase a perfeição, E se você se mantiver em algumas áreas exclusivas, cujos limites um passante desavisado não percebe, é esta imagem paradisíaca e asséptica que você leva daqui.
Escrito por MARILIA em 06/11/2005
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05/11/2005
Oba! Hoje é quarta

Não fecha

Num dia, por qualquer razão, você repara na entrada elegante de um prédio moderno, na frente de um novíssimo centro de convenções. Duas semanas depois, você vê o mesmo prédio caído de joelhos, as veias de ferro retorcidas, ainda agarradas a placas de cimento e paredes de gesso. Foi alguma alguma bomba, penso, mas não li nada a respeito. “O que aconteceu aqui?”, pergunto. Nada demais. O prédio está sendo demolido para dar lugar a algo mais moderno e inteligente.
Um mês ou dois mais tarde, aquela montanha de escombros foi separada, e o cimento armado moído vai ser todo reaproveitado. Numa terra em que há tanto desperdício, isso me surpreende.
É esse leed score, Mike me diz, isso está crescendo muito aqui. Tudo agora tem que ter esse leed score. Pesquiso um pouco. É uma iniciativa de empresários da construção civil para fazer prédios inteligentes e “verdes”. LEED é sigla, Leadership in Energy and Environmental Design. Uma espécie de ISO 900 da construção civil.
Além de tudo, um grande marketing. Quem não prefere comprar um apartamento num prédio que tem o certificado Leed Score? Isso significa menor consumo de água, de energia, durabilidade e qualidade dos materiais usados, uma vida mais saudável para quem vive ou trabalha nesses prédios, e a preservação do planeta. Talvez seja o começo de uma nova tendência na arquitetura, os primeiros passos pós pós-modernistas.

Mas voltando ao mercado de imóveis. Em muitos lugares a cidade e’ um canteiro de obras. Vêem-se guindastes mais altos que prédios altos, no meio das ruas, por toda parte.

É uma febre. Os analistas prevêem o estouro da bolha para qualquer momento. Previsões que se repetem há seis ou sete anos. E o mercado continua robusto, gerando incontáveis empregos e riqueza.

Me parece que o dinheiro barato e abundante é, em grande parte, responsável por isso.
Primeiro: não vale a pena poupar porque rende muito pouco, praticamente nada.
Segundo: vale a pena pegar empréstimo, porque as taxas de juros são irrisórias (mesmo com a subidinha recente).

O consumo aqui é imenso e super estimulado Todo mundo têm cartões de crédito e gasta, gasta. Há muita oferta de tudo, e tudo é barato para quem ganha em dólares. E, praticamente, basta saber assinar o nome, e já estão te emprestando. Os bancos mandam cartas dizendo que se você já tem uma hipoteca de casa, pode ir procurá-los e pegar mais dinheiro, juntar com o saldo devedor da casa e refinanciar tudo a juros ainda mais baixos. E caso você não saiba para o que precisa de mais dinheiro, eles sugerem nos folhetos de propaganda. Pode ser para comprar um barco, viajar pelo mundo, comprar aquela casa na praia, tirar um ano de férias, voltar aos estudos.

Para quem vem do Brasil, isso e’ muito curioso. Essa política monetária frouxíssima, toda essa demanda, toda essa emissão de moeda não provocam inflação!?
Claro que em algum momento essa conta vai ter que fechar, o resultado de tudo isso têm que começar a aparecer. Já há sinais – a desvalorização do dólar, por exemplo - mas enquanto isso a economia vai muito bem, o povo vai bem, e tem emprego sobrando.

Há décadas fazemos exatamente o oposto do que fazem aqui. Há décadas mantemos juros altíssimos, restringindo a produção, o investimento e a demanda. Consumir para nós é quase um crime contra a segurança nacional. O pais e’ mantido no limite da asfixia. Dizem que isso e’ necessário porque temos dívidas a pagar. Os Estados Unidos também têm. O déficit deles é enorme.

Há um elo que não fecha direito nesse círculo vicioso. Tem que haver uma ideologia por trás disso, algum compromisso quase religioso com o atraso, a pobreza, a estrutura nefasta que nos mantém sem saída. Mas com uma gorda e risonha "aristocracia".
Escrito por MARILIA em 05/11/2005
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02/11/2005
Sentenças irrevogáveis

Quando era menina, pensava que a adolescência fosse o único período de dúvidas, de sofrimento emocional, ao longo da vida. Dali para a frente, seríamos estáveis como montanhas e teríamos todas as respostas.
Os adultos que eu conhecia não tinham dúvidas; só certezas e sentenças irrevogáveis. Exerciam sua autoridade como plenipotenciários, exigiam obediência, respeito, e não admitiam questionamento.
Comigo não foi desse jeito. O tempo não me trouxe nem respostas, nem a clarividência que eu julgava atributo da idade.

A adolescência foi, sim, uma fase conturbada. Vi que precisava me desvencilhar da teia que me sufocava e proibia qualquer esperança, qualquer visão. São tantos os fios invisíveis que nos paralisam, e que constituem os pilares de nossa formação! São tantas as mentiras, culpas, dogmas, medos, tanto entulho a sabotar nossa energia.
Procurei reconstruir do zero a maior parte das estruturas que me haviam imposto. Mas esse processo não se esgotou então.
Só que veio a vida adulta, e esta nos colhe na engrenagem, com suas faturas a pagar, tarefas a cumprir, papéis a desempenhar. Não sobra tempo nem mesmo para nos conhecer.

Talvez seja assim porque temos medo. Não queremos tempo livre, nem ficar sozinhos e por isso nos atrelamos no primeiro carro, qualquer coisa que nos dê uma rotina, um sentimento de pertencer, e que nos permita não pensar.
Mesmo assim, nas horas quietas, ouvimos a voz noturna de rios subterrâneos, e para nosso espanto, vemos emergir, independentes, autônomos, pensamentos transversos, templos soterrados, buracos negros, mundos insuspeitos.
Somos bichos, animais mamíferos, e também somos um mistério.

PS: Daqui para frente, vou por textos só às quartas, para não sobrecarregar os amigos:).
Escrito por MARILIA em 02/11/2005
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31/10/2005
A Paixão que temos por Nossa Terra

No dia das últimas eleições para a Presidência da República, depois de votar, andei do Leme ao Leblon, parando aqui e ali para olhar o mundo, tomar uma água de côco, e me deixar invadir pela festa nas ruas. O brilho, o sorriso comum em todos os rostos, quanto mais humildes mais cheios de confiança – a poderosa onda de alegria varrendo tudo, era como dia de vitória do Brasil em copa do mundo. Era de engasgar, embriagante.

Finalmente a esquerda, o marxismo, embora ultrapassado no resto do mundo, teria sua oportunidade no Brasil.
Uma eleição histórica, o momento da virada.
E acho que foi mesmo, embora de um modo inteiramente diferente do que se esperava.
Leio jornais e revistas pela internet. Vejo sites militares, religiosos, voz operária, leio Observatório da Imprensa, Janer Cristaldo; os amigos me mantêm informada.
Não importa a tendência ou a qualidade do escrito, há um ponto em comum em todos eles: a paixão que temos por nossa terra. E o quanto pensamos, o tempo todo – mesmo inconscientemente – no tipo de país que queremos.

Sempre me incomodou que Macunaíma, o herói preguiçoso e sem caráter de Mário de Andrade, fosse considerado a imagem do brasileiro. Vim do interior de Minas, fiz faculdade em Belo Horizonte, morei em Brasilia, Santa Catarina e me fixei no Rio. Sempre vi gente batalhando. E predominam, sim, as pessoas com caráter, com princípios. Macunaíma talvez represente parcelas das classes que vivem dos altos impostos impostos ao povo, mas certamente não nos representa, não representa as classes médias, pobres, e as classes produtoras que não vampirizam o país.
A praia é um bom exemplo. Milhares de pessoas trabalham ali o dia inteiro e noite adentro, enquanto houver gente circulando. Do catador de latas ao vendedor de cocada, às estátuas vivas, lá está a base da pirâmide, fora do sistema, se virando como pode, o povo historicamente desamparado, mas incansável. Paciente. E sempre pronto a tentar. De novo.

Escrito por MARILIA em 31/10/2005
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29/10/2005
Paraíso

Meu genro conhece o Brasil de viagens de férias. Rio, Minas, São Paulo, Recife, João Pessoa. Foi conhecer e se apaixonar como quase todo estrangeiro. O povo amigável, descomplicado, alegre bate direto no coração de quem vem de um meio cultural reservado, desconfiado, defensivo.

Somos maravilhosos mesmo.
Fanatismo, fundamentalismo, máfias, ódio racial não criam raizes entre nós.
Gostamos da vida, de celebrar a vida! Não gostamos de confronto. Preferimos a sedução, o senso de humor.

Até os corruptos são o que estamos vendo. Flagrados, comprovadamente criminosos, em vez de se matarem como fazem alguns em que resta alguma decência, eles choram, protestam, apontam o dedo e, se tiverem chance, roubam de novo. Não há dinheiro que aplaque sua avidez.
E está tudo certo. E fica por isso mesmo.

Nosso pais é o melhor lugar do mundo para politicos, demagogos, criminosos de todo calibre - mas estou me repetindo.

A vida é exasperante no nosso paraíso.

No entanto, não temos grandes problemas. Não temos ódios viscerais nos separando, não temos guerras eternas, nem dominação estrangeira ou fomes africanas.

Nosso problema é mais de atitude, de mentalidade. Podemos mudar isso. E a hora é essa, quando os muros e as máscaras caem.
Escrito por MARILIA em 29/10/2005
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